Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

Impressão final

Tardou mas foi. Um livro como Specimen Days não poderia ser arrumado na estante, impune, sem uma palavra ou outra sobre o que dele os olhos leram e a alma sorveu.
Como acho que ficou visível pelos excertos que aqui coloquei, a história deste livro desdobra-se em três tempos distintos mas no mesmo espaço, Nova Iorque. É nesse cenário de luzes e agitação constante que as personagens de cada história encontram pontos em comum. Três nomes vão passando pelo papel de narrador, dando vez ao interior de cada um: Lucas, Catherine e Simon. Nomes que até são escritos de maneiras diferentes mas a relação que os une em cada história salta à vista e o fio condutor torna-se evidente. Outro elemento incluído nesse fio condutor é a presença da poesia e de uma das figuras mais emblemática da literatura americana - Walt Whitman. Enquanto que na primeira história, o narrador Lucas utiliza versos de Leaves of Grass como resposta aos porquês da morte do irmão mais velho , na segunda história, Cat é levada a conhecer um modo de vida onde miúdos carregam consigo o tic-tac do renascer de uma sociedade mais whitmaniana. Na terceira e última história, a poesia não se faz pesar de forma tão clara mas à medida que o novelo da narração é desenrolado reparamos nas migalhas subtis deixadas pelo caminho, através do narrador homem-máquina Simon cuja alma é um programa informático futurístico onde a poesia é utilizada como equilíbrio entre extremos.
São universos aparentemente distintos e auto-suficientes mas quanto mais se é sugado para dentro deles mais nos apercebemos que a distância não é um factor assim tão pesado entre eles. Que há sempre algo que nos liga e o passado, presente, futuro unifica-se num tempo nosso.
No fundo, o que me parece estar em causa ao longo de toda a narração, seja em que parte da história for, é uma leve (ou então não tão leve assim) contestação da cultura e modo de vida americanos. Aparece, e não poucas vezes, uma referência à conquista do Oeste, a uma esperança de um Novo Mundo que tentam (ainda) criar a todo o custo. Todas as personagens, a um certo ponto, transbordam um desejo de regressar às raízes, de se afastarem do domínio da máquina, de começar de novo. De como as coisas boas daquela terra continuam a passar muito ao lado dos olhos da gente que a habita.
Tendo gostado imenso da obra As Horas, escrita pelo mesmo autor e tendo também apreciado o filme baseado na sua outra obra Uma Casa No Fim Do Mundo, as expectativas quanto a este livro estavam um pouco acima do que seria de desejar mas ao mesmo tempo não sabia muito bem o que dele esperar. Foi com uma ansiedade ligeiramente dividida que abordei o livro ao início mas umas páginas depois apercebi-me de que esta seria uma caminhada que iria percorrer com enorme gosto.

publicado por xary às 19:57
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7 comentários:
De eli a 28 de Dezembro de 2006 às 21:45
parece-me bem, um pouco confuso talvez mas bem. deve ter alguma na manga ;o)
***


De joana a 29 de Dezembro de 2006 às 01:11
O chato desta partilha é o desejo que me suscitam os vossos livros! Chego a ansiar pela terceira idade para finalmente ter tempo para pregar o rabo na cadeira de baloiço e os olhos nos livros!

E lembrei-me imediatamente das Horas, que embora nao me tenha deixado muito feliz, deixa sempre a vontade de give the author another shot! talvez com o specimen days...


De maryjo a 6 de Janeiro de 2007 às 00:34
Pois é... concordo com a manata. Isto ta a fazer crescer agua na boca. Quero ler tudo!!Mau mau...lol

Mas, sim, é um livro que me apela bastante.LOL E já sabes... tou na fila para que mo emprestes!LOL

Tb curti bue AS Horas!;)

kiss

**


De tati a 6 de Janeiro de 2007 às 17:03
fiquei com vontade de ler esse livro...quer dizer, primeiro quero ler o livro d A.S.Byatt «Possession. A Romance.», fiquei mesmo com vontade de o ler, mas depois tenho a certeza q essa seria uma boa leitura.


De Firefly a 6 de Janeiro de 2007 às 22:01
=) agora sim. estou com vontade de o ler.

pensar nesse autor é sempre relembrar o mundo absolutamente fantástico (mas perturbador) d' "As Horas"...

obrigado por nos destapares a cara do livro gomas.

p.s. fiquei presa no tempo com o meu vergílio. espero ainda estar a tempo de lhe recuperar o rosto e entregá-lo a vocês entretanto...


De xary a 6 de Janeiro de 2007 às 22:38
não te preocupes, com o vergílio vais sempre a tempo ;) *


De eli a 7 de Janeiro de 2007 às 01:22
epa tantos coments... assim já gosto ;o)


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